Minha experiência com intercâmbio social

Então, a Isa me pediu pra escrever um texto sobre como é fazer um intercâmbio de voluntariado. De cara pensei que não queria que fosse um texto que falasse só do voluntariado em si (porque cada projeto social é diferente, e porque essas informações as pessoas acham na internet) e nem só dos meus sentimentos e aprendizados (por acreditar que essas coisas têm impactos diferentes em cada um de nós).

Resolvi começar falando sobre as minhas motivações. Bem objetivamente, eu buscava duas coisas: a primeira era não ficar três meses em casa nas férias (eu gosto bastante de viajar rs), e a segunda era fazer algo pelos outros de fato, já que meu dia-a-dia nos últimos anos tem sido voltado pras minhas necessidades, meus estudos, meu desenvolvimento acadêmico, o que faz com que eu sempre coloque meus problemas em posição de destaque (o que é perigoso) e acabe não me colocando a disposição ‘do mundo’.

Pois bem, decidi fazer um intercâmbio social. Fui pro Peru pela AIESEC, pra uma cidade do norte chamada Chiclayo, que de maneira geral não é uma cidade turística. Eu queria uma experiência fora da minha zona de conforto e imaginava que fugindo de Lima e das cidades turísticas teria menos contato com brasileiros. Então esse foi o primeiro ponto: eu fugi da zona de conforto.

Meu projeto em Chiclayo era em uma ONG, uma organização sem fins lucrativos para crianças e adultos com necessidades especiais. Durante seis semanas ajudei a planejar atividades que sempre tiveram como objetivo fazer com que eles tivessem mais autonomia, que pudessem participar da vida familiar de maneira ativa, que pudessem ser parte da sociedade de alguma forma.

A gente acha que indo pra um lugar assim vai ensinar alguma coisa: primeiro erro. Indo pra Chiclayo eu percebi que eu não sei de nada. Receber todo o amor que eu recebi das pessoas, acompanhar as crianças e vibrar junto com cada progresso, mesmo que pequeno. Ver que mesmo com todas as dificuldades econômicas, o pouco que tinham era sempre compartilhado. Todas essas coisas fizeram com que eu repensasse a minha vida e de certa forma dimensionasse melhor meus problemas (que são tão pequenos) e colocasse tudo em perspectiva.

As crianças são, de fato, especiais. Elas demonstram amor pelo simples fato de você estar ali. Não se importam se você gosta de pagode ou de rock, não querem saber se você é rico ou pobre, se tem carro ou anda de ônibus. Eles te amam pelo brilho nos olhos, pelos abraços que você dá. Com certeza foi o amor mais puro que eu já senti.


Outra experiência que foi especial nesse intercâmbio foi ter ficado em uma Host Family. Minha família peruana me acolheu como filha e me inseriu ainda mais nessa experiência cultural. Acho que aqui é válido comentar que essa é uma grande diferença do intercâmbio social pros outros intercâmbios. Essa sensação de ‘pertencimento’, de fazer parte de uma família, de uma sociedade, de ter um propósito num país com uma cultura tão diferente da sua.

Relembrando um passado com alguns intercâmbios, todos os que eu fiz até hoje tiveram como objetivo um desenvolvimento acadêmico meu. Fosse um estágio fora, um curso de inglês, um ano inteiro de Ciência sem Fronteiras. Pela primeira vez eu viajei com o objetivo de me doar inteiramente, e me doando, acabei descobrindo um lado humanitário que eu sabia que estava ali, então esse desenvolvimento pessoal é muito forte no intercâmbio social. Nesse tipo de intercâmbio as coisas acabam ficando bem claras. As coisas importantes de verdade ficam bem nítidas, a gente acaba percebendo do que sente falta mesmo, o que é necessário e o que é luxo.

Outra coisa boa do intercâmbio de maneira geral, é abraçar a liberdade que ele te dá. Mais uma vez, fez toda a diferença viajar sozinha e conversar com as pessoas, entender que elas têm maneiras diferentes de levar a vida. Eu sempre acabo me abrindo pra esses encontros e esbarrando com pessoas que me ensinam muito. A independência é incrível, e existe essa liberdade pra ser exatamente aquilo que a gente quer ser.

No fim das contas, o que fica depois de um intercâmbio social é um olhar diferente pra nossa própria vida, são as reflexões que a gente faz. No meu caso, foi entender que não fazer mal não é suficiente, se omitir não é suficiente. É preciso assumir algumas responsabilidades, deixar de lado os privilégios e fazer o que a gente pode, onde quer que a gente esteja. Entender os problemas do mundo através dessas experiências acaba impactando profundamente nos objetivos, na visão de mundo, de forma que não tem como voltar e ser a mesma pessoa depois.

Obrigada Isa por me fazer lembrar dessa viagem tão especial e por me deixar abrir o coração sobre esse assunto! ❤

*Texto escrito por nossa amiga Ana Carolina Mangrich

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