Brasília: a história da cidade dos sonhos

Brasília era um sonho antigo. E quando digo sonho, não é apenas no sentido figurado. Conta-se que, na noite anterior à festa de Santa Rosa de Lima (30 de agosto) do ano de 1883, Dom Bosco, fundador da Congregação Salesiana nascido na Itália, teve um sonho, do qual destaco um trecho:

“Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia de ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: – quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.”

Esta passagem não foi inventada. O próprio Dom Bosco a relatou em uma Assembleia da Congregação Salesiana, em 1883. Anos mais tarde, ela foi publicada em suas “Memorie Biografiche”.

Há quem diga que isso é uma mera coincidência, mas o fato é que Brasília foi construída entre as latitudes 15º e 16º Sul, “entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Atlântico”, conforme outra passagem de Dom Bosco. Além disso, à época o sacerdote pensava constantemente no Brasil, pois a Ordem Salesiana acabara de se instalar no país.

As referências à interiorização da capital do Brasil (ora Salvador, ora Rio de Janeiro, ambas cidades litorâneas) datam de muito antes do sonho de Dom Bosco. Em 1761, Marquês de Pombal, secretário de Estado do Reino Português, comentou sobre “…erguer no sertão uma cidade, não apenas Capital da Colônia, mas do Reino, a meio caminho da África e das Índias, na rota das linhas vitais do seu comércio”. Entre 1808 e 1813, o jornalista Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, fundador do primeiro jornal brasileiro [Correio Braziliense], que era impresso em terras inglesas, publicou vários artigos incitando a construção de uma nova capital no interior do Brasil, por achar que o Rio de Janeiro não dispunha das qualidades para ser Capital do Império do Brazil. Entre 1821 e 1823, durante a transição da Colônia para o Império, José Bonifácio defendeu a interiorização da capital do Brasil, cujo nome deveria ser Petrópolis ou Brasília. Por fim, em 1891, a primeira Constituição da República do Brasil estabelecia, em seu artigo terceiro, a demarcação de uma área de 14.400km quadrados no Planalto Central onde se estabeleceria a Capital Federal.

Entretanto, o sonho só viria a se tornar realidade sob o comando de Juscelino Kubitschek, eleito presidente em 1955, em meio a um momento político conturbado da história do Brasil. Aqui cabe outra história: antes das eleições, em um comício eleitoral na cidade de Jataí/GO, JK teria respondido  afirmativamente à pergunta de um jovem acerca do cumprimento do trecho da Constituição que previa a construção da nova Capital Federal. Após a posse, o homem do “50 anos em 5” organizou a criação da “Meta Síntese”, que dispunha sobre a criação da capital.

Não tardou para que fosse aprovada a Lei nº 2.874 de 19 de setembro de 1956, que estabelecia o nome e a localização da nova capital, além da criação da NOVACAP (estatal que ficaria responsável pela construção). Em 10 de novembro já se inaugurava a primeira obra, o Catetinho ou Palácio de Tábuas, que abrigaria o presidente JK em suas visitas à construção.

Traçado inicial do Plano Piloto. A intersecção entre os Eixos Monumental e Rodoviário representa o Marco Zero de Brasília, onde hoje fica a Rodoviária do Plano Piloto

Talvez mais importante do que isso foi o Concurso Público lançado pelo Governo Federal, no dia 30 de setembro de 1956, para eleger o Plano Piloto da Nova Capital do Brasil. Por trás disso estava também o arquiteto Oscar Niemeyer, então Diretor do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da NOVACAP. Foram enviados 26 projetos, sendo que alguns foram desclassificados e os demais foram submetidos a um júri internacional. Não há dúvida de quem foi o ganhador: Lúcio Costa. No projeto, a frase que sintetiza o desenho de seu plano urbanístico: “Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz”.

Ideia de Lúcio Costa para o Plano Piloto: formato de cruz

O eixo longitudinal, ou Eixo Rodoviário, no sentido norte-sul, abrigaria as residências. Essas seriam dispostas em blocos, dentro de superquadras, com espaços de convivência arborizados. Já o eixo transversal, ou Eixo Monumental, no sentido leste-oeste, abrigaria o centro administrativo, o centro cívico, o setor cultural, o centro esportivo, os quartéis, as pequenas indústrias e a estação ferroviária. Por fim, previa-se, também, a criação de dois outros eixos: gregário, próximo à intersecção entre os dois eixos anteriores, que abrigaria um setor de diversão; bucólico, composto pelas áreas arborizadas do Plano Piloto, como parques e áreas de convivência.

Disposição dos setores residenciais em superquadras com blocos e espaços de convivência

Outro pressuposto do projeto de Lúcio Costa seria a eliminação de cruzamentos rodoviários, o que permitiria uma maior eficiência do fluxo de carros, conforme a Carta de Atenas. Isso vai ao encontro, também, do desenvolvimentismo proposto à época, que previa o estímulo à industria automobilística e ao uso do carro como principal modal de transporte. Daí se traça o panorama de Brasília hoje, conforme comentaremos em um outro post: uma cidade para carros, na qual a bicicleta, o pedestre e o transporte público são deixados de lado.

Cada uma das edificações que viriam a ser desenhadas por Niemeyer foram antes dispostas no mapa por Lúcio Costa, exatamente no lugar onde estão hoje. O Congresso Nacional seria destaque; A Praça dos Três Poderes, a Versalhes do povo, a céu aberto; Os ministérios, simétricos e dispostos na Esplanada, com destaque para os “desgarrados” Ministério da Justiça e Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), que ficam em ambos os lados do Congresso.

O Plano Piloto tal qual é hoje segue à risca o projeto de Lúcio Costa, com uma exceção: O “avião” foi trazido para mais próximo do Lago Paranoá, para que não houvesse ocupação irregular da área entre o lago e o local em que seria o Plano Piloto.

Apesar disso, o projeto era limitado. Não por culpa de Lúcio Costa, que anos depois reconheceu alguns erros conforme Brasília era moldada por sua população. À época, o edital pedia a construção de um Plano que abrigasse 500 mil pessoas. O de Lúcio era ainda menor que isso, tanto que o júri reconheceu que não tardaria para que as cidades-satélite ganhassem forma. Em 2015, menos de 10% da população do Distrito Federal (2.906.574) morava no Plano Piloto (210.067).

Não podemos esquecer também do elemento fundamental à construção da tão sonhada capital: os trabalhadores de fora ou candangos. Inicialmente, quando Brasília era só um descampado, ocupado pela vegetação do cerrado, os goianos vinham para traçar as primeiras rodovias. No primeiro ano da construção eram 1000. Depois vieram os mineiros e os nordestinos, sobretudo, que promoveram o milagre da multiplicação: de 1000, em 1956, para 60.000, em 1959. A maioria era composta de solteiros em busca de oportunidades. Alojavam-se em barracos improvisados, principalmente onde estão localizadas as cidades-satélite no entorno do Plano Piloto, como Núcleo Bandeirante. A vida não era fácil por essas bandas. O trabalho era árduo, pois havia um prazo de entrega: 21 de abril de 1960.

Construção da avenida W3/Sul, 1959. Destaque para os barracos dos candangos, que viviam em condições precárias.

Para cumprir esse prazo, o presidente Juscelino Kubitschek fazia questão de visitar as obras regularmente. Em 2 anos foram 200 visitas. JK não hesitava em conversar com os trabalhadores, entre os quais ganhou extrema simpatia. O propósito, como o então presidente contou no livro “Porque construí Brasília”, era incumbir neles o sentimento nacionalista sob a figura de uma nova Capital Federal, e assim concluir a obra no prazo.

JK em sua 1º visita ao Planalto Central (Reprodução: Site/Memorial JK)

No dia 21 de abril de 1960, conforme prometido, inaugurou-se a nova Capital do Brasil. Após centenas de anos de promessas vãs, o sonho enfim se realizava. Hoje, Brasília continua tendo como pilar principal a atividade burocrática. Porém, muitas coisas mudaram: a ocupação das áreas do entorno do Plano Piloto foi intensa, e as cidades-satélite representam mais de 90% da população do DF; a mobilidade é, hoje, um desafio: Brasília paga o preço por ter apostado nos carros como principal meio de transporte; a promessa de integração entre as regiões do país, sob responsabilidade da nova capital (“o trampolim para a Amazônia”), não aconteceu totalmente.

Acima de tudo, Brasília merece o respeito dos brasileiros: foi palco dos momentos mais importantes da história do Brasil, como a Constituição de 88. E vale lembrar: seus políticos, sempre lembrados quando se fala da Capital, não são apenas brasilianos. São catarinenses, paulistas, mineiros, goianos, acreanos, paraibanos e por aí vai. O centro político-administrativo do País vai muito além de qualquer atividade escusa, por vezes intragável, dos nossos representantes.

Para mais informações sobre o Concurso Público de 1956 e o projeto de Lúcio Costa, clique aqui.

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