Uma breve história de Cusco, a antiga capital Inca

Apesar de não haver consenso de quando Cusco começou a ser povoada, a cidade é considerada a mais antiga ainda existente das Américas. Acredita-se que a primeira cultura a habitá-la, nos idos de 1000 a.C., foi a Marcavalle, composta por fazendeiros e pastores. Claro que, antes disso, povos nômades já haviam passado por Cusco, mas ninguém havia se estabelecido em suas terras até então. Por volta de 800 a.C., estabeleceram-se na região os Chanapata, dos quais restou apenas alguns fragmentos de cerâmica para contar história. O próximo registro que se tem é de muito tempo depois, de 600 d.C., quando a cultura Qotakalli foi criada e o primeiro sistema de estados regionais foi estabelecido.

Pisaq, porta de entrada para os sítios arqueológicos do Valle Sagrado. Apresenta mescla das arquiteturas inca e espanhola.
Pukapukara, uma espécie de alfândega durante o Império Inca

Entretanto, a primeira cultura a trazer significativo desenvolvimento urbano, agrícola e religioso foi a Wari, proveniente da região de Ayacucho, que se estabeleceu em Cusco nos anos de 750. Aliás, eles deixaram um legado arquitetônico para os dias atuais, sob os sítios de Piquillacta e Choquepuquio (poquíssimo explorados pelas agências de turismo de Cusco). Inexplicavelmente, os Wari sumiram do mapa – mas não da história – por volta do ano 1000. Há vestígios de sua ocupação a 22km de Ayacucho, no chamado Museo de Sitio Wari.

No período entre 1000 e 1200, diversos povos se alternaram no domínio da região de Cusco, sem que um deles obtivesse destaque. Porém, no início do século XIII, teria início a formação de um dos impérios mais grandiosos já existentes na América, o Inca. Na verdade, o império em si era chamado de ‘Tahuantisuyo‘ (em quéchua, “quatro estados”), representando as quatro partes em que Cusco era dividida, enquanto ‘Inca’ se referia ao governante máximo (o primeiro foi Manco Cápac). A expansão de fato só veio sob o comando do Inca Pachakuteq, coroado em 1438, época em que foram construídos Machu Picchu, Moray e as rodovias que interligavam os povoados do Tahuantisuyo, que no auge se estendia pelo noroeste da Argentina, os vales centrais do Chile, o sul da Colômbia e o altiplano boliviano.

A ‘Pedra dos 12 ângulos’, um fenômeno da arquitetura incaica
Mais um exemplo da arquitetura incaica, dessa vez em Machu Picchu

Ao contrário do que se pensa comumente, a derrocada do Império Inca não se iniciou com a invasão espanhola, mas sim com uma guerra civil entre dois irmãos que disputavam o posto mais alto do império, em 1529: Tupac Kusi Wallpaq, mais conhecido como Huascar, e Atahualpa. Esse último se sagrou vencedor, mas não pôde reinar por muito tempo. Francisco Pizarro, o conquistador espanhol, encontrava-se em terras incaicas desde setembro de 1532, quando iniciou a conquista do território do Tahuantisuyo com a ajuda de uma pequena força expedicionária.

Quando chegou a Cajamarca, convidou Atahualpa para uma reunião. Sem que o líder Inca imaginasse, Pizarro armou uma emboscada, matando as tropas desarmadas de Atahualpa e fazendo-o prisioneiro. Para ser libertado, esse prometeu o pagamento de uma grande quantia de ouro e prata aos espanhóis. Durante os 9 meses em que ficou preso, os metais preciosos das terras mais longínquas do império eram enviados a Pizarro. Mesmo assim, Atahualpa foi executado em Julho de 1533, e o ouro e a prata foram parte enviados à Espanha, e parte destinados à tropa do Conquistador.

Sacsayhuaman, construído durante o Império Inca para fins militares

Francisco Pizarro nomeou, então, o seu aliado Manco Inca Yupanqui novo rei do Império Inca. Juntos, eles ingressaram na cidade de Cusco em 1533. Em março de 1534, Pizarro fundou oficialmente a espanhola “muito nobre e leal cidade de Cusco”. Incrivelmente, não houve resistência. As tropas espanholas foram recebidas com alegria pela população inca, que pensava que se tratavam de deuses incas, conforme uma antiga profecia.

A resistência só veio quando Manco Inca se deu conta das verdadeiras intenções dos conquistadores espanhóis. Então, ele iniciou uma sublevação que durou 37 anos a partir de Vilcabamba, povoado onde se refugiou. Para Pizarro, a dificuldade não partia só da resistência incaica, mas também de um determinado conterrâneo. Diego de Almagro, tendo fracassado na conquista do Chile, rumou às terras do atual Peru em busca de ouro. Seus apoiadores lograram matar Francisco Pizarro, em 1541. Foram os descendentes do “Conquistador do Peru” que conseguiram derrotar os almagristas e, posteriormente, dizimar a resistência incaica, ao executar o Inca Tupac Amaru I, filho de Manco Inca, em 1572, a mando do vice-rei espanhol Francisco de Toledo.

Qorikancha, o templo mais importante do Império Inca, transformado em monastério pelos espanhóis. Representa a mescla das arquiteturas inca e espanhola.

A próxima rebelião contra a invasão espanhola só aconteceria por volta de 1780, quando José Gabriel Condorcanqui, mais conhecido como Tupac Amaru II, intentou declarar a independência do Peru. Não obteve sucesso, e foi morto na Plaza de Armas de Cusco em 1781. Tupac Amaru II era um criollo (descendente de espanhóis e indígenas), estudou em ótimas escolas e, inclusive, na Universidad San Marcos, em Lima, onde teve contato com os ideais iluministas e com a história de Tupac Amaru I, de quem se dizia descendente. Desde jovem mostrou-se contrário à submissão dos indígenas pelos espanhóis. Influenciou os movimentos por independência dos anos seguintes, que só tiveram sucesso em 1821.

As lendas da criação de Cusco

Conta a lenda que Manco Cápac e Mama Ocllo, filhos do Sol e da Lua, partiram da Isla del Sol, no Lago Titicaca, em busca de um lugar para fundar a capital de um grande império. O lugar escolhido seria aquele em que o cajado de ouro que levaram consigo se enterrasse com apenas um golpe. E isso aconteceu em Cusco.

Uma segunda lenda tem como protagonistas quatro irmãos que sobreviveram a um dilúvio provocado por Viracocha. Então, saíram de uma caverna em Pacaritambo para repovoar a Terra. Três dos quatro irmãos abandonaram a tarefa antes de encontrar o destino, sendo que Mama Ocllo e Ayar Manco seguiram viagem até o local em que um cajado de ouro dado por Viracocha enterraria com apenas uma batida. A lenda ainda conta que Manco enlaçou o sol para que esse não se pusesse, e assim Cusco pudesse ser criada. A pedra de onde ele enlaçou o sol seria a Intihuatana, em Machu Picchu. Por fim, Ayar Manco se tornou Manco Cápac, o primeiro Inca.

Intihuatana, em quéchua ‘o lugar em que se amarra o sol’

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